desabotoar do céu

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Prece

Nossa senhora dos pensamentos em devaneio, livrai-me da dispersão,
Amém.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Um

O pensamento caiu num buraco sem fim enquanto fugia.
Foi morar em meio a estranhos conhecidos e
gostava de estar entre eles
embora não conseguisse trocar uma idéia.

Ele era pensamento rápido, desavisado, sem dono.
Queria parar junto a outro pensamento,
criar laços, constituir família.
Mas sua forma, tamanho, lógica
e precisão lhe desiludiam do mundo.
Os dias passavam e lhe diziam:
você não é daqui, dali, acolá

- Você é de lugar nenhum.

Ultimamente ganhava amigos sem força e brilho,
agarravam-lhe a vida, tomavam emprestada sua alegria.
Ficava então ali sozinho, sem vizinho, sem destino, sem.
Um pensamento isolado de si.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Danado

Eles discutiam o futuro da razão. Debaixo de tanta pele, força, tensão, o sentir ganhava o mundo e queria mais. Para além das amarras da mente por hora tão polida, se deixassem os dias seguirem assim, onde iria morar o ponderado, o medo lascado, o meio molhado, tudo assim um tanto pingado?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Conversa de umbigos

Meu Nome é Alice. Dois. Sim. Isso é um tênis. Você não usa sapato? Uuuuaaaauuuuuuu. Uma ovelhinha. Aaaaaaaaaaahhhhhhhh. Posso levar os macacos para passear? Olha meu umbigo! Você não tem umbigo? Me mostra o seu. Eu já vi o da minha mãe.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Ceci n'est pas une pipe

dedi de mi corazón
eso es todo ficción.
amor,
popcorn

sábado, 24 de outubro de 2009

Cronos alado

Ouviu alguém dizer no telefone bem próximo a ele: o tempo tudo cura.

Pensou que aquilo poderia ser lema de algum movimento pelos corações partidos, letra de música, adesivo de carro, estampa na camiseta. Poderia ser o pedido em um restaurante:

- Por favor, quero um O tempo tudo cura bem passado.

Por enquanto bastava que fosse recordação, memória, nostalgia. Ouvir aquela frase no fim da tarde em que se sentia tão só conseguiu mudar a melancolia do dia. Ganhou o tom framboesa, como a amiga argentina gostava de denominar tudo o que lhe parecia bom. Porque é mesmo isso: o tempo nas suas inconstâncias e surpresas, aliados a algum desequilíbrio de sua parte, lhe mostrava a toda hora novos buracos onde ele ainda não havia resvalado, novas fendas que até então não haviam sido descobertas. Sentia que a urgência que carregava consigo há tanto tempo transformava-se em serena imobilidade. Caminhava mais lento, sentia-se às vezes mais fraco, congelado por tanto medo. Tentava a respiração profunda e liberar os nós através do ventre, mas ao redor o que resplandecia era ainda medo e a vontade da cura do tempo, profetizada por alguma desconhecida logo ao lado na tarde framboesa.

Sentia por ele uma paixão tão forte, queria tanto eternizar-se ao seu lado e sabia que isso era bem possível. Mas as vezes doía tanto. Era comum vê-lo a janela. Quem por ali passava o imaginava conversando com o vento. Todas as noites dirigia seus pensamentos a Cronos Alado e com o coração, pedia sempre o mesmo: senhor dos tempos reais e imaginários, vem e leva o que não é meu contigo. E deixa sobre esta terra só o que for bom.

domingo, 11 de outubro de 2009

I will miss you

no fim da cena os personagens seguiam, cada um o seu caminho, a meia-luz,
desejando nunca serem esquecidos por quem deixavam.
e seria mesmo assim,
uma lembrança de futuro já guardava cada instante
numa caixa com dançarina e segredos rodopiando saudades.

(des)memória